Mostrando postagens com marcador 1997-Biologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1997-Biologia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Coquetel de remédios combatem HIV

Rasteira no HIV



O inimigo é forte e rápido. Em poucas semanas um vírus da Aids (HIV) espalha milhares de cópias. O corpo reage mas, sem as drogas, o HIV ganha a batalha. No Brasil não falta munição para combatê-lo. “Fornecemos os remédios gratuitamente”, afirma o infectologista Pedro Chequer, diretor da Coordenação Nacional de Aids do Ministério da Saúde.
O governo atende 70 000 doentes – todos os que procuram ajuda, em um universo estimado em 400 000 infectados. A maioria ou não sabe que está contaminada ou não quer fazer o tratamento. Mesmo assim, segundo Chequer, os remédios fizeram o número de mortos cair pela metade desde 1997. A redução foi da ordem de 6 000 para 3 000, por ano.
Isso confirma a eficiência do coquetel, que impede a reprodução do vírus. É verdade que o número de infectados cresce: houve 7 564 novos casos no ano passado. E parte carrega micróbios resistentes às drogas. Mas o HIV está sendo derrotado. “Quem se trata não morre mais de Aids”, arrisca o infectologista Guido Levi, diretor do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo.

A tática que derrubou o inimigo
Em 1996, a paciente Rosana, então com 34 anos, chegou ao consultório de Guido Levi com as defesas em frangalhos e um número enorme de vírus circulando no corpo. Estava magra e fraca. Em 1997 ela começou a ser tratada com uma combinação de três remédios (veja o infográfico ao lado). Desde então, Rosana ganhou peso e a quantidade de células CD4, uma das defensoras do organismo, aumentou muito, passando de apenas quinze por mililitro de sangue para 276. Hoje a paciente recebe mensalmente os medicamentos do Ministério da Saúde e mantém a Aids sob controle.
O milk-shake de poções que devolveu o ânimo a Rosana e ajuda milhares de outros cidadãos é composto de cerca de vinte drogas, divididas em dois grupos: os inibidores de transcriptase e de protease. Todas servem para bloquear a reprodução do vírus.
Os remédios têm pequenas diferenças químicas entre si e são mais eficientes se combinados dois a dois ou de três em três. O médico escolhe a fórmula adequada para cada paciente. Mas não toma a decisão sozinho. Ele segue recomendações feitas por um conselho dos principais especialistas em Aids do país.
Conselho de guerra
Desde 1996, eles se encontram no Ministério da Saúde, em Brasília, sempre que é preciso tomar medidas importantes. Foi o que aconteceu no dia 18 de maio. Dessa vez, conforme apurou a SUPER, a principal recomendação do conselho foi a de restringir o uso das inibidoras de protease, que, atualmente, fazem parte de mais de 60% dos tratamentos. Isso evitaria que o vírus se tornasse resistente a elas muito depressa. O remédio ficaria reservado apenas para os casos mais graves.
Enquanto os médicos tentam atrapalhar o contra-ataque do HIV, os laboratórios procuram reduzir um aspecto incômodo dos remédios. Os pacientes se queixam porque têm de engolir de quinze a vinte comprimidos por dia. “Muitos até deixam de tomar a dose completa”, conta o infectologista Davi Uip, da Universidade de São Paulo. Para reduzir o desconforto, versões recentes de algumas drogas estão vindo em concentração mais alta. Com isso, o número de comprimidos cai para somente dois ou três ao dia. O que nenhum esforço conseguiu, até hoje, foi eliminar os efeitos colaterais, que começam com dores de cabeça, náuseas e diarreia. Mais tarde vem o aumento excessivo de peso e dos níveis de colesterol. Mesmo assim, o sucesso do tratamento compensa, com folga, todos os inconvenientes.
Ressarce até as despesas que o governo faz com o coquetel. Cada paciente custa cerca de 1 000 reais por mês e já foram gastos 500 milhões de dólares para garantir o fornecimento deste ano. “Esse montante é, em parte, compensado pela economia com tratamento em hospitais. Desde que a terapia começou a ser financiada, foram evitadas mais de 47 000 internações”, diz Pedro Chequer, do Ministério da Saúde. “E nem estou levando em conta a profunda melhora no dia-a-dia dos pacientes”, completa.
Tão simples que se torna indestrutível
O HIV é feito de apenas nove genes e faz parte de um grupo de vírus, chamado retrovírus, muito primitivo. Para construir seus sucessores precisa sequestrar substâncias das células que invade. E, mesmo sendo tão rudimentar, consegue muitas vezes driblar as drogas ao sofrer mutações durante a sua replicação.
Esse é o principal motivo pelo qual não se pode ficar acomodado com a eficiência do coquetel que vem derrubando a Aids. Em 1998, a infectologista Susan Little, da Universidade da Califórnia, avaliou 69 pacientes em cinco cidades americanas e concluiu que 25% deles já tinham vírus imunes a pelo menos um dos medicamentos. Um estudo semelhante, com 100 pacientes contaminados há três anos, está sendo feito no Brasil pelo Instituto de Medicina Tropical, da Universidade de São Paulo, e pelo laboratório Bristol-Meyers.
“Os dados preliminares indicam que os portadores de vírus resistentes não são tantos quanto esperávamos”, diz o virologista Paolo Zanotto, coordenador do projeto. Mas ele adverte que, desde o início dos exames, podem ter surgido novos mutantes que não aparecem nesse resultado animador.
Por enquanto, há um empate entre as drogas e o HIV. O desafio é evitar que ele tome a dianteira. “Se isso acontecer, será um problema contê-lo”, diz Davi Uip. “Dificilmente surgirá algum medicamento mais forte nos próximos cinco anos”, explica o cientista.
Também não há perspectivas de destruição total do invasor. Primeiro porque, em algumas partes do mundo, na Ásia e na África, faltam recursos e organização para comprar e distribuir o coquetel à população. Com isso, a epidemia continua crescendo. De acordo com um relatório divulgado no mês passado pela Organização Mundial da Saúde, a Aids foi a doença infecciosa que mais matou em 1998: 2,28 milhões de vítimas, a maioria na África.
A salvo no refúgio
Em segundo lugar, mesmo onde não falta remédio, nunca é possível destruir todos os HIVs. O motivo é que os bandidos desenvolveram uma estratégia astuta de se esconder dentro do núcleo de algumas células de defesa, chamadas linfócitos-T. Nesse refúgio, não podem ser atingidos e conseguem sobreviver até sessenta anos, de acordo com uma avaliação feita na Universidade Johns Hopkins, Estados Unidos.
O azar do HIV é que as pesquisas não param. Agora mesmo o infectologista Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, nos Estados Unidos, procura um jeito de expulsar o vírus de sua toca. Sua arma é uma substância que o corpo produz para estimular as células a crescer, a interleucina-II. “Suspeito que, ao disparar o processo de desenvolvimento das células T, a interleucina possa arrancar o HIV do esconderijo”, diz o cientista. “Assim, ele pode finalmente ser destruído pelas drogas”, raciocina Fauci. Se estiver certo, isso pode levar à rendição incondicional do invasor.
Mais informações »

Orelha humana enxertada em rato abre caminho para técnicas de transplante





O médico Charles Vacanti, da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, levantou uma grande polêmica no mundo ao construir uma orelha a partir de células da cartilagem humana e aplicá-la nas costas de um rato. O organismo do animal que foi construído pela engenharia genética, com os anticorpos alterados para não ter defesa imunológica, ou seja (ele estava tão fraco e vulnerável que apenas uma simples gripe poderia mata-lo) recebeu o novo órgão sem nenhuma rejeição. Com a experiência, ele mostrou que é possível fazer o implante de órgãos fabricados em laboratório sem maiores problemas. No caso do homem, não será preciso arrasar o sistema imunológico: a rejeição é evitada porque as próteses são feitas com células da própria pessoa que vai receber o órgão. Em dois anos, Vacanti espera estar fazendo testes em voluntários. Por ora, vamos estudar a multiplicação das células de outros tecidos cartilaginosos humanos como o nariz e o menisco (do joelho),

O pior e se ele resolver experimentar outros órgãos nos ratos...bom mas ai já fica por conta da imaginação de cada um.



Mais informações »

Droga retarda progressão do mal de Alzheimer

Mal de Alzheimer: pesquisas realizadas em animais



A descoberta dos primeiros genes possibilitou aos pesquisadores criar um modelo animal para a doença. Durante décadas, a pesquisa da doença do Mal de Alzheimer sofreu limitações porque apenas seres humanos a desenvolvem, e é difícil, e por vezes antiético, realizar pesquisas com humanos. Ao transferir os genes para camundongos, as placas de amilóides puderam ser agrupadas no cérebro dos animais, facilitando os experimentos – e acelerando as descobertas.
Por volta de 1997, algumas drogas foram surgindo – primeiro o Donepezil, depois a Rivastigmina e a Galantamina. Chamados de inibidores da colinesterase, aumentam a disponibilidade de acetilcolina, substância importante na transmissão dos impulsos nervosos. Mais recentemente, outro medicamento se tornou disponível: a Memantina. “Esses remédios melhoram os sintomas da doença, mas não a curam. Ela é uma doença crônico-degenerativa, que segue seu curso. As drogas, no entanto, retardam a progressão”, diz Senger. Depois de seis meses de tratamento, a doença pode ficar estável por um período que varia de seis meses a dois anos.
Duas décadas de pesquisas criaram um quadro da doença de Alzheimer chamado de “hipótese de cascata do amilóide”, que quer dizer mais ou menos isto: todos temos essa proteína no cérebro, normalmente liberada e descartada. Mas algum desencadeador, combinado com o envelhecimento, incita uma mudança – mutação genética, talvez, um vírus, traumatismo na cabeça ou lesão cerebral sutil causada por infarto ou AVC. De repente, uma quantidade excessiva de amilóide tóxica é produzida ou não é eliminada com rapidez suficiente. Isso acarreta acúmulo de placas amilóide nos neurônios. Uma alteração degenerativa da proteína tau também ocorre. Como resultado, o transporte de nutrientes é impedido, e as células nervosas morrem.
A princípio, a transmissão dos impulsos no cérebro é interrompida, prejudicando o armazenamento e a recuperação da memória – e, nesse estágio, medicamentos, como inibidores da colinesterase, podem ajudar. Conforme mais amilóides e proteínas tau degeneradas se depositam, mais neurônios morrem, o cérebro se torna inflamado, os tecidos atrofiam e, por fim, toda a rede neural pára de funcionar. O processo provavelmente leva anos para se desenvolver, começando muito antes de os sintomas aparecerem.
“Se conseguirmos interromper o acúmulo de amilóides poderemos parar a doença”, diz Bertolucci.

Remédios para o Mal de Alzheimer


Pesquisadores descobriram mais de 30 compostos diferentes que podem interromper, retardar ou impedir o acúmulo de placas amilóides em camundongos, ou ainda acelerar sua liberação.
“Não sabemos se algum deles fará o mesmo em seres humanos”, diz o Dr. Paul Fraser, professor de biofísica médica da Universidade de Toronto, que fez parte da equipe que anunciou um novo agente promissor em junho de 2006. Um composto chamado ciclohexanehexol, ou AZD-103, interrompeu o acúmulo de beta-amilóide em camundongos e reduziu os sintomas.
Os compostos estão na Fase I dos testes clínicos. Outros estão na Fase II. Nela, a eficácia do tratamento é testada em grupos de 100 a 300 pessoas. Depois, se ele ainda for promissor, avançará para ensaios clínicos de Fase III em até 3 mil pacientes com grupos de controle. Nem os pacientes nem os médicos pesquisadores terão conhecimento de quem estará recebendo o tratamento até o fim do estudo.
“Existem muitas drogas em fase de investigação, que, para se mostrarem úteis, necessitam de tempo de estudo. Uma medicação leva, em média, dez anos, desde o início da pesquisa até estar disponível na farmácia”, lembra o Dr. Senger.

Mais informações »

Desvendado o príon, a proteína que pode causar enfermidades fatais

Nunca foi fácil lutar contra a insônia. No século XVII, pessoas com distúrbios do sono recebiam uma prescrição inusitada do médico e poeta gaulês William Vaughan: "corte, na extremidade de seu gorro de dormir, um buraco pelo qual o vapor possa sair". A receita sugere que todos os remédios disponíveis já haviam sido experimentados. Atualmente, a Classificação Internacional De Distúrbios Do Sono (Cids) enumera cerca de 90 distúrbios, numa lista que contém desde os mais comuns, como a insônia, até os mais raros, quase desconhecidos.

Entre 10% e 20% das pessoas afirmam dormir pouco e mal. Nesse universo, há mais mulheres que homens e mais idosos que jovens. A insônia parece ser uma verdadeira epidemia nos países industrializados, muito difícil de curar, se for verdade que - como afirma Elio Lugaresi, um dos pioneiros da medicina do sono e diretor do Instituto de Clínica Neurológica da Universidade de Bolonha, Itália - "cada insone é um problema em si". Marcel Proust, por exemplo, não podia ir para a cama se suas ceroulas não estivessem presas na cintura por um determinado alfinete, conta o pesquisador da Universidade de Cambridge Paul Martin em Counting Sheep: The Science And Pleasures Of Sleep And Dreams. Junto com o alfinete, proust perdia o sono.

Regras elementares, geralmente bem conhecidas dos insones - não beber café e dormir sempre no mesmo horário -, e os fármacos, especialmente aqueles de última geração, podem funcionar quando o distúrbio ainda está no começo. A insônia crônica, porém, escreveu Jean-Anthelme Brillat-Savarin, advogado e gourmet francês do século XVIII, é "uma verdadeira maldição". Muitos especialistas concordam.

NOITES DE PESADELO

Dificuldade para dormir à parte, o sono é também o berço de fenômenos realmente bizarros. Os vídeos dos pacientes submetidos a polissonografia no laboratório da clínica neurológica de Bolonha ao longo dos anos mostram um repertório daquilo que pode acontecer durante a noite. Homens e mulheres, crianças, adultos ou idosos levantam-se repentinamente, pulam da cama, agitam-se até arrancar os eletrodos, contorcem-se em estranhas danças envolvendo pernas e braços ou imitam gestos da vida cotidiana. Sempre dormindo.
A medicina do sono, que começou a explorar esse mundo desconhecido somente a partir dos anos 60, desvelou muitos aspectos em um ritmo impensável. "Naquele tempo - conta Lugaresi -, em muitos ramos da medicina era necessário revolver toneladas de terra para encontrar a pepita de uma descoberta. No estudo do sono, bastava apenas raspar o terreno para descobrir uma jazida."

Um distúrbio que somente há alguns anos foi reconhecido como problema médico, o segundo mais difundido depois da insônia, é a apnéia obstrutiva, chamada também "síndrome de Pickwick". O nome vem de um personagem de Charles Dickens, o gordo e guloso Joe, que era tomado por uma sonolência invencível durante o dia. A pessoa que sofre desse mal pode acordar, sem dar-se conta, até cem vezes por noite.

Devido a uma asfixia momentânea, pára de respirar por um intervalo que vai de poucos segundos a mais de um minuto, até o momento em que dispara um mecanismo fisiológico de alarme. Então arqueja, retoma o fôlego e volta a dormir até a crise seguinte. Esse contínuo quase despertar torna o sono fragmentado e descontínuo, tanto que o sintoma principal, além do ronco que muitas vezes acompanha o distúrbio, consiste em uma grave sonolência durante o dia.

Também a "síndrome das pernas inquietas" pode atormentar as noites de muitos, 4% da população, segundo estimativas. Assim batizada nos anos 40 pelo neurologista sueco Karl Ekbom, foi descrita com base em diagnósticos precisos somente há alguns anos. As pessoas que sofrem desse distúrbio queixam-se de uma sensação de desconforto nas pernas, geralmente na panturrilha, e de uma necessidade irresistível de mexê-las para aliviá-la. A falta de ferro e uma anomalia no funcionamento dos sistemas dopaminérgicos do cérebro são possíveis causas.

FENÔMENOS ENIGMÁTICOS
As verdadeiras protagonistas da noite são, porém, as parassonias, que representam 10% de todos os distúrbios do sono. A essa categoria pertencem os fenômenos mais misteriosos e desconcertantes. Alguns são conhecidos desde a Antigüidade, como o sonambulismo, os terrores noturnos e a paralisia do sono, mas só recentemente foram definidos com clareza. E outros são novos, como o distúrbio comportamental do sono REM ou a epilepsia noturna.

Hoje, sabe-se que o sonambulismo e o sonilóquio são produtos da fase não-REM do sono, a de ondas lentas. Assim como os terrores noturnos, esses fenômenos são, geralmente, típicos da infância. A aterrorizante paralisia do sono é uma experiência que 5% a 6% das pessoas experimentam pelo menos uma vez na vida. Em Moby Dick, Herman Melville descreve o fenômeno que, segundo especialistas, deriva de um despertar parcial anômalo do sono REM, aquele em que se sonha.

Característico da fase REM do sono, é um tipo particular de distúrbio, que acarreta movimentos bastante agitados durante uma fase normalmente marcada por relaxamento do tônus muscular. Michel Jouvet já observara que gatos dos quais determinados centros nervosos haviam sido cortados moviam-se, pareciam caçar e perseguir presas imaginárias ou começavam a lavar-se. O mesmo acontece com pessoas portadoras desse distúrbio: encenam seus sonhos. A patologia foi descrita, pela primeira vez, em 1986, por Mark Mahowald e Carlos Schenk, da Universidade de Minnesota, Estados Unidos, depois de estudarem os casos de quatro pacientes que agrediram suas companheiras durante o sono. Um deles quase estrangulou a esposa que dormia a seu lado, durante um sonho em que lutava contra um veado e queria quebrar o pescoço do animal.

Uma parassonia recém-descoberta é a epilepsia noturna do lobo frontal, estudada no laboratório bolonhês a partir dos anos 80. Um vídeo mostra um jovem que repete, dezenas de vezes durante a noite, um movimento do braço sempre idêntico. Em outro, aparece uma mulher que, a intervalos regulares, levanta-se e senta na cama de um só impulso.
Pode acontecer também que o sono invada os territórios da vigília de forma patológica. A narcolepsia, que alguns devem conhecer devido à descrição de Jonathan Coe em seu romance A Casa do Sono, é o exemplo mais dramático. Quem sofre da doença pode adormecer durante uma conversação, na sala de aula, enquanto come ou espera o ônibus. Qualquer emoção, uma risada, uma surpresa, um impulso de raiva, pode levar o portador do distúrbio a perder, de repente, o tônus muscular até encontrar-se na impossibilidade de mover-se ou falar, mesmo estando consciente. Essa doença, considerada por muitos quase uma curiosidade, tem, provavelmente, a mesma incidência da esclerose múltipla e do mal de Parkinson: afeta uma pessoa em 2 mil. Hoje, sabe-se que, na origem dessa síndrome, há um grupo de neuropeptídeos com o nome curioso de hipocretinas. Uma equipe de pesquisadores da Universidade Stanford, EUA, identificou a anomalia genética que provoca a narcolepsia nos cães. No caso do homem, o mecanismo da doença ainda não foi totalmente esclarecido, apesar de estar aparentemente associado à incapacidade do hipotálamo de produzir hipocretina, um dos hormônios que regulam o sono e a vigília.


Insônia Fatal

A privação do sono representa um tormento tão grande que foi usada até como instrumento de tortura. Talvez isso baste para dar uma idéia de quanto pode ser trágica e sinistra uma doença que priva da capacidade de dormir até levar à morte. A insônia familiar fatal, doença rara e de caráter hereditário, foi descoberta na Universidade de Bolonha, pelo grupo de Elio Lugaresi, em 1986, mas a história começou muito antes. Em 1973, uma mulher da província de Treviso começa a perceber estranhos distúrbios que parecem ser de origem neurológica, tanto que os médicos falam de demência ou Alzheimer, sem nunca chegar a um diagnóstico preciso. A mulher morre em 12 meses, aos 49 anos, e no fim pesa apenas 30 quilos.

Cinco anos depois, sua irmã, de 54 anos, manifesta os mesmos sintomas, e a história de sua doença é uma réplica do primeiro caso. Ignazio Roiter, o médico da família, decide enviar o cérebro da mulher a um neuropatologista suíço, que não detecta nenhuma anomalia no cérebro, a não ser uma pequena lesão do tálamo.

Em 1983, o irmão das duas mulheres começa a exibir os mesmos sintomas assustadores. No começo, parece ansioso e deprimido e reclama de dormir mal. Depois passa a comportar-se como sonâmbulo. Tomado por um cansaço invencível, procura deitar-se de qualquer jeito. Com o tempo, cai em uma espécie de torpor, do qual desperta raras vezes, quando é solicitado. Enquanto isso, suas funções vitais parecem entrar em curto-circuito: transpira continuamente, sofre de pressão alta, come com voracidade. Segundo o dr. Roiter, o sintoma-chave, mascarado pela sonolência do paciente durante o dia, parece ser a impossibilidade de dormir, mas ninguém está disposto a dar-lhe atenção. Determinado a resolver o problema, o médico empreende uma busca nos arquivos da paróquia para reconstruir a genealogia da família.

Roiter encontra registros narrando casos de parentes que morreram por um estranho "esgotamento" e reconstrói a árvore genealógica até o século XVIII. Descobre que muitos outros membros da família foram atacados por esse mal que os médicos tomam por encefalite, demência, alcoolismo. Ele decide então telefonar para Lugaresi para dizer-lhe que acreditava estar lidando com um caso de insônia letal de caráter familiar. "Em vez de rir na minha cara, como outros haviam feito, me convidou para encontrá-lo no dia seguinte", conta.

Quando decidem internar o paciente, os exames confirmam aquilo que parecia inacreditável: o eletroencefalograma mostrava um estado de vigília contínua, interrompida apenas por breves fases de sono REM. O paciente parecia acometido pela mesma "peste da insônia", descrita por Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão. O distúrbio, como foi esclarecido mais tarde, consiste justamente na incapacidade de gerar o sono lento. Algumas imagens do homem filmadas na fase terminal da doença o mostram com as pálpebras caídas, a ponto de adormecer sentado. Mas o sono verdadeiro nunca chegava para ele. Depois de alguns meses, caiu em um estado de torpor contínuo, interrompido somente por breves momentos de sonhos revelados por gestos. Em uma imagem, o homem faz o gesto de abotoar o paletó: quando lhe perguntam o que estava fazendo, responde que se preparava para ir a uma festa. Com a morte do paciente, Lugaresi envia o cérebro a Cleveland, nos Estados Unidos, para Pierluigi Gambetti, seu antigo colaborador. Gambetti nada encontra de anormal, exceto uma lesão do tálamo. Essa estrutura, até então considerada pouco importante para os mecanismos do sono, revela-se um nó crucial nos circuitos que o governam. A hipótese de Lugaresi, elaborada ao longo dos anos, depois de ver outros membros da família morrer por causa da insônia fatal é simples. As lesões do tálamo, espécie de estação intermediária, desconectariam o hipotálamo - o regulador das funções autônomas e promotor do sono - estrutura que controla seu funcionamento, o córtex cerebral. Enfim, é como se o organismo nunca recebesse um sinal "pare" dos estímulos e, com isso, superaquecesse até a exaustão.

Mas a descoberta tem outros desdobramentos. Já nos primeiros anos, Lugaresi percebe que o eletroencefalograma do doente de insônia fatal se assemelha ao das pessoas que sofrem da doença de Creutzfeldt-Jakob. Além disso, as características da lesão fizeram Gambetti pensar que se tratava de uma doença causada por príons, proteínas que Stanley Prusiner, prêmio Nobel em 1997, estudava naqueles anos. No fim, Gambetti, a quem Prusiner forneceu os anticorpos necessários para confirmar o diagnóstico, demonstrou, com uma série de experiências, que a partir do material extraído do cérebro das pessoas mortas por insônia fatal pode-se desenvolver a doença nos ratos. O mesmo acontece quando injetamos nos animais material cerebral de vítimas da doença de Creutzfeldt-Jakob. É a demonstração de que os príons são agentes infecciosos.

A insônia fatal encontra-se, portanto, no cruzamento de dois importantes campos de pesquisa: o estudo do sono e as doenças causadas por príons. Nos últimos tempos, foram identificadas 27 famílias, no mundo todo, nas quais a doença se transmite de geração em geração. Sabe-se também qual gene está em sua origem, e um teste permite identificá-lo. Infelizmente, ainda não existe cura.

Mais informações »

ASSINE NOSSO E-MAIL E GRATIS

Copyright © 2013 BioLiterário. Traduzido Por: Template Para Blogspot.
Blogger Template by BloggerTheme9